domingo, 4 de março de 2018

II Samuel, Unforgiven

Vi há pouco tempo, pela primeira vez, o Unforgiven. A nível pessoal, só reforça a minha ideia de que o Clint Eastwood é o meu realizador preferido. A outros níveis, que cada um poderá tentar adivinhar quais são se estiver para aí virado, fez-me lembrar o livro da Bíblia de II Samuel, que como tem sido uma leitura recente, levou-me a ver o filme uma segunda vez, para a consolidação, e até talvez deixar aqui umas linhas. Quanto à história do filme, um acto de justiça que fica por fazer motiva uma vingança que desencadeia uma série de eventos muito maiores do que a ofensa original. A coisa descamba tanto, que a vingança desce não apenas sobre os ofensores, mas sobre os vingadores, os vingadores dos vingadores, e os vingadores dos vingadores dos vingadores. Aliás, para proteger os primeiros ofensores de uma vingança à margem da lei, eles chegam até a receber protecção das autoridades.
A história do rei David e Batseba, relatada em II Samuel, é uma das partes da Bíblia que mais me fala, que mais me incomoda. Já a revi mentalmente uma série de vezes. Talvez seja a história bíblica que mais facilmente saberia contar a outra pessoa sem recurso a cábulas. No entanto, para o que aqui importa, é que também é o precursor de uma história de injustiças não lidadas, cada uma alimentando-se das anteriores, cada vez maiores. Na Bíblia, na descrição que faz da história do reino de Israel, aquele pecado “privado” serve para assinalar o início do fim.
Quanto às semelhanças com o filme, num há uma prostituta mutilada, na Bíblia há a violação incestuosa de Amnon a Tamar. A ausência de punição no filme leva ao anúncio de um prémio (à margem da lei) pelas cabeças do mutilador e seu amigo; na Bíblia, um irmão – Absalão – arquitecta uma vingança. No filme, a autoridade do Xerife é posta em causa, e os eventos saem do seu controlo. Na Bíblia, a autoridade de David é posta em causa, e os eventos saem do seu controlo. Nunca tinha reparado bem nisto, que David deixou de ser efectivamente rei durante um período em que o trono foi usurpado por Absalão.
Uma das vertentes das minha convicções cristãs é a importância da justiça. Muitos evangélicos, nas suas teologias pessoais pejadas de apetites pessoais, gostam de argumentar sobre uma primazia do perdão sobre a justiça. Muitas dessas vezes, sinto que o fazem não para elevar o perdão, mas para diminuir a justiça, o que já provocou em mim reacções fortes. Esta parte da Bíblia parece deixar este assunto bem claro. Um acto de injustiça não declarado e não punido, propagou-se ao longo da história e a multidões de pessoas. Se a injustiça não for sequer identificada e nomeada enquanto tal, não haverá sequer qualquer razão para perdões. Nesse sentido, senti uma grande comunhão com as palavras desta semana do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid ibn Ra'ad: vocês estão a ser identificados, as vossas acções estão a ser registadas.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Um episódio com um conhecido de um conhecido de um conhecido do C.S. Lewis

Ontem acabei de ler o Surprised by Joy (numa tradução brasileira, com o título Surpreendido pela Alegria), razão pela qual me sinto com o ímpeto para escrever o pequeno espisódio que se segue, se é que sequer se pode chamar episódio. Antes que algum dia me venha a esquecer dele.
Eu gosto muito dos livros do C.S. Lewis, ao ponto de isso fazer de mim uma espécie de fã, ou adepto do homem. Curiosamente, esta noção convive com outra: que se por alguma razão me tivesse cruzado com o homem, não me teria dado bem com ele. Tenho quase a certeza disso.
Há uns anos atrás, participei num retiro no Canto da Rola, em que o orador era um senhor inglês chamado Richard Goodwin. O objectivo era ele falar sobre o assunto que mais o entusiasma e ocupa, que é o o do aconselhamento. Não é psicologia, não é terapia, é aconselhamento. A figura do conselheiro é, que eu saiba, inexistente em Portugal, o que poderá explicar muita coisa, pelo menos em termos da relação que as pessoas têm consigo mesmas.
Mesmo neste assunto do aconselhamento, que não era propriamente a área de actuação de Lewis, aconteceu citações suas serem evocadas com alguma frequência nos estudos e palestras (first things first, and second things second, é o que mais me vem à mente). Aliás, como acontece amplamente nos mais variados tipos de literatura cristã, sempre que é preciso explicar uma coisa complicada com uma imagem simples, têm tido e terão sempre o bom velho Lewis.
Num dia, no carro a caminho do almoço, fiz do próprio Lewis o assunto da conversa, o suficiente para denunciar a minha admiração pelo homem. Então, o Mr. Goodwin, numa espécie de abébia, decidiu dar um bocado de espaço às segundas coisas durante o tempo daquele retiro. Contou-me que na sua juventude, tinha tido uma professora de piano. Essa professora chamava-se Lucy Barfield. Este apelido não me era estranho. Naturalmente. Ela era filha de um dos grandes amigos de Lewis,  Owen Barfield. Aliás, agora que li o Surprised by Joy, percebo o ascendente que deve ter tido sobre ele, já que do seu círculo de conhecidos, pelo menos na idade adulta, é seguramente o mais referido de todos. Mas não chegasse isso, a própria Lucy é a pessoa em quem é baseada a personagem Lucy Pevensie, a personagem (principal?) das Crónicas de Narnia.
O valor disto tudo é nenhum. Não mais do que o que uma rapariga adolescente nos anos 60 atribuiria a um trapo, se esse trapo tivesse sido rasgado de uma roupa usada por um dos Beatles. Reconheça-se, no entanto, o mérito a um homem que produziu este tipo de admiração nas pessoas com base em livros, e não na sua beleza física, na sua música, ou em como foi promovido por alguma máquina de marketing bem oleada. Ou seja, atribua-se o mérito, mais do que ao homem, aos seus escritos.
Este episódio de conhecimentos de conhecimentos de conhecimentos de uma determinada pessoa faz-me sempre lembrar uma parte do enredo das Crónicas de Nárnia. No livro do guarda-fatos, crianças entram num mundo paralelo através do interior de um guarda-fatos. Mas noutro livro, descobrimos que esse guarda-fatos foi construído com madeira de uma árvore que teve de ser cortada. Essa árvore cresceu depois de ter sido semeado o caroço de um determinado fruto. Esse fruto (que curou uma pessoa de uma doença grave) foi trazido de Nárnia num episódio anterior. Esse fruto foi apanhado de uma árvore especial, que em Nárnia, serve para mais ou menos os mesmos efeitos que a Árvore do Bem e do Mal no Génesis.
E o episódio é isto. É mais um episódio mental do que um episódio histórico.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Blade Runner, distopias, maus sonhos


Esta semana vi pela primeira vez o Blade Runner, e dá para dizer qualquer coisa sobre a experiência de o ver. Já tinha visto umas quantas distopias futuristas, fossem filmes ou animes, e boa parte deles tinham elementos em comum, tão repetitivos que uma pessoa só podia pensar que vinham de uma origem em comum, ou que apontavam para um futuro em comum. Ou ambos (embora a segunda possibilidade perca força estatística se a primeira se verificar). Uma ideia central pairava por aí, à qual os argumentistas tinham aparentes dificuldades em fugir, pegando mais numa ponta, ou mais noutra, mas nunca separando do núcleo da ideia, que julgo - isto parece ser consensual - que terá a ver com a relação entre homem e tecnologia, nomeadamente as fronteiras entre um e outro.
Quando vi aqueles cenários, aqueles temas, aquela sociedade, senti imediatamente que já conhecia aquilo de algum lado. Uma pesquisa rápida entre google e wikipédia confirma: várias dessas distopias foram primordialmente inspiradas por esta história (exemplo mais óbvio: Ghost In The Shell). Outras foram da autoria do mesmo autor, na verdade (por exemplo, Total Recall). E aparentemente, não há precursores do Blade Runner. Desta vez bebi directamente da fonte. É a isto que se chama "arquétipo", não é?

É engraçado que em certo sentido, parece uma encenação daquilo a que o C.S. Lewis chamava de "bons sonhos". As várias religiões dos mais variados lugares continham elementos, como por exemplo, um deus que morre e volta à vida, que seriam uma prefiguração do acontecimento real a acontecer no futuro - que Deus viria à Terra, morreria e ressuscitaria. Tinham saudades de um evento futuro. Quando o Lewis viu o Cristianismo, também lhe cheirou que já conhecia aquilo de algum lado, e que finalmente foi dar à origem. É só que essas religiões sonhariam com o futuro, enquanto que o exemplo de que falo, das distopias, evocaria o passado.

No entanto, eu acho que estas distopias não são só uma evocação do Blade Runner, mas bons palpites para o futuro - e como tal, chamemos-lhes "maus sonhos". O corpo de prova parece apontar para coisas desse género. A tecnologia tem sido sempre mais dominadora do que os seus utilizadores (chamemos-lhe os "utilizados"?), e há ainda grupos de pessoas que parecem gostar dessa ideia, empenhando energia e recursos impressionantes no objectivo de fazer a tecnologia avançar muito para além de qualquer necessidade a ser suprida, e intrometê-la nas esferas mais profundas e íntimas do ser humano. E são estas pessoas que lideram e conduzem o progresso tecnológico.

Pessoalmente, a distopia que considero mais provável será próxima do Matrix. Sim, acho que a coisa passará por ficarmos quietos, com as nossas consciências a existirem num mundo virtual. O software impor-se-á ao hardware. Quando fazia o programa Barnabé, do GBU, lembro-me de conversar com o Manuel Rainho sobre isto. Ele inclinava-se mais para o lado oposto, da biónica. Implantes e melhoramentos robóticos sucessivos, até que não se perceba onde é que a pessoa deixou de ser pessoa para passar a ser máquina. Na altura, a robótica ainda estava muito atrasada; hoje esse cenário já parece mais plausível, e já se fala muito em implantar membros robóticos, ou em usar exoesqueletos, já para não falar nos gadgets que podem ser controlados pelo pensamento, ou em "injectar" imagens directamente no cérebro. Mas ainda assim, eu fico na minha, e acredito que mais cedo ou mais tarde será normal que, em vez de apanhar um meio de transporte para ir para o trabalho, se faça uma ligação a um espaço virtual (com óculos, ou ligando directamente o cabo à espinha como no Matrix) que será o local virtual de trabalho. O trabalho, esse, continuará real. Cá estaremos para ver, e estou certo que os Marks Zuckerbergs deste mundo darão o seu melhor para que isso aconteça.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Um fado invertido

Durante muito tempo, uma das minhas músicas preferidas do Bob Dylan, das poucas que conheço, foi e é Boots of Spanish Leather. E agora, descobri esta, Girl From the North Country, que é parecida em tantos aspectos, da melodia ao assunto, que deve ter sido uma espécie de primeira versão, depois modificada para se tornar Boots of Spanish Leather (desconheço se terá feito uma variação desta música por cada namorada que o largou).



Ambas parecem ser uma espécie de fado invertido. No fado, a mulher espera pelo seu homem que está longe, e permanece à espera custe o que custar, doa a quem doer. O fado exprime esse custo e essa dor. Nestas músicas do Bob Dylan, o rapaz está longe da rapariga e está sem saber se ela ainda conserva os mesmos sentimentos por ele. A música resolve o assunto, encerrando-o para o lado do rapaz. Mas deixando sempre uma mina romântica a ser pisada algum tempo depois, assim se proporcione. Seja um recado de comprar botas, seja uma mensagem através de terceiros que vão à feira, o recurso está lá. Ou seja, o rapaz resolve a coisa mal resolvida. O rapaz é o "romântico incurável". No meu mundo, tudo bate certo. Não seria de esperar que fosse o rapaz a acabar competente e eficazmente com uma ligação amorosa.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

As elites no The Post

Já li críticas e comentários ao The Post de três ou quatro jornais diferentes, e todos eles tinham uma parte em que relacionavam o episódio dos anos 70 com o tempo actual. Mas nenhum deles o fez da maneira que me ocorreu.

Talvez seja preciso relembrar que o diagnóstico que se tem feito à emergência do populismo actual aponta para uma reacção forte ao predomínio de uma elite cultural, que nominalmente, até pode advogar o apoio às camadas mais baixas de sociedade, mas na essência esqueceu-as nas suas reivindicações, e até do quanto depende delas (isto vê-se a cada vez que alguém defende que o país pode prescindir do trabalho mais braçal da indústria ou da agropecuária, em troco de economia de serviços, para pessoas mais “qualificadas” ). E tudo isto acontece sob a legitimidade de uma superioridade moral e intelectual – eles sim os mais qualificados - que lhes permite decidir sobre o destino dos outros, mesmo que seja em experiências sociais cujas consequências negativas não os afectarão, mas apenas os méritos se os houver. Na Europa, chama-se a isto “esquerda caviar”; nos Estados Unidos, acho que o papel foi assumido pelo que lá chamam de “liberais”.

Pois eis no The Post uma representação dessa elite, um grupo alargado de amigos que têm em comum as suas posições de poder ou de influência, que jantam uns com os outros e ao serão falam dos membros do Governo que se fossem os vizinhos do lado, e da governança como se fossem planos para o fim-de-semana que vem. E surge o escândalo dos Pentagon Papers, que mancha um dos amigos da proprietária (Kay) de um jornal (Washington Post). E na esfera superior em que estas duas pessoas encontram, a decisão de publicar ou não publicar foi ponderada, em primeiro lugar dos acontecimentos, à luz da amizade que os unia. A redenção de Kay ao longo do filme começa por relativizar este entrave por comparação com outras coisas bem mais importantes, como se pessoas morrem numa guerra destinada a ser perdida em nome de coisa nenhuma que não eleitoralismo. Outros entraves vão surgindo, como o futuro financeiro do seu jornal, e até a possibilidade de prisão. 

Uma das lições do filme é que aquela elite social não era possível. Aquelas pessoas não podiam ser amigas, nos moldes daquilo a que normalmente chamamos amizade, sem que isso fosse moralmente reprovável. Os interesses eram demasiado opostos, e se o choque não exisistisse, é porque uns estavam a servir-se dos outros – no caso, a classe política estava a beneficiar de protecção mediática através da próximidade com membros influentes da imprensa.



À medida que a redenção de Kay se concretiza, é possível vê-la na sua empresa – o Washignton Post – numa descida à realidade, em locais cada vez mais inferiores na hierarquia e na importância do jornal, quando durante quase todo o filme só a tínhamos visto em casa, em restaurantes ou em salas de reunião. Perto do fim do filme, surge no reboliço da redacção – chega a levar um encontrão de uma funcionária apressada – onde as notícias são feitas. No fim do filme, desce ainda mais baixo até à tipografia, onde se trabalha com as mãos, a juntar pacientemente os caracteres que darão origem ao texto do jornal. É desta maneira que a vemos a redescobrir o jornal cuja sobrevivência conquistou. O jornal enquanto conjunto de pessoas que dependem umas das outras. Talvez enquanto se convencia que teria de mudar de companhias, nomeadamente, estar mais aquelas pessoas que sustentam o seu jornal, e como tal, a possibilidade de exercer os seus valores através dele.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Porque é que a pregação estava errada - 2018-01-21

Na parede estava projectado "Deus omnisciente". Abrimos no Salmo 139, para ler a primeira metade, até ao versículo 12. Segue-se uma curta explicação do Pastor, qualquer coisa como que como Deus sabe todas as coisas, é como se estivesse em todo o lado. E assim sendo, prosseguiu enumerando uma série de atributos de Deus, deste texto e de outros que foram mencionados, que remetiam sempre para a omnipresença, e não a omnisciência, de Deus. Mas claro, atributos esses que foram equiparados logo no início. Essa foi a premissa que daria algum sentido ao que se passou.

Pode ter sido um teste à atenção das pessoas, a ver se no fim do culto, alguém ia queixar-se ao Pastor. Pior, pode ter sido que a pregação tenha sido prepararada a pensar em "omnipresença", mas por lapso, no powerpoint, ficou escrito "Deus omnisciente" em vez de "Deus omnipresente", e isso foi corrigido, não com uma confissão do lapso, mas com uma consideração teológica de alto nível. É semelhante ao que George Bush, numa entrevista acerca da estratégia para o Afeganistão, dizia ser usar misseis de milhões de dólares para acertar em camelos. Equiparar omnipresença com omnisciência para disfarçar um erro de escrita no powerpoint é equiparável a esta consideração de Bush.

Mas vou assumir que foi movido por convicção que o Pastor da minha igreja orientou a pregação neste sentido: pregar sobre a omnisciência de Deus, equiparando-a à Sua omnipresença, e usando como texto bíblico base Salmos 139:1-12, para vincar que Deus está connosco em todos os momentos e lugares (sobretudo dos versículo 7 a 12). Nesse caso, acho que foi um desperdício ter lido apenas o início, porque o texto tem as suas próprias intenções e ênfases, e são melhor percebidas lendo-o até ao fim. Consigo identificar umas quantas, que vou enumerar de seguida. Quase todas elas apontam para o Deus pessoal e que se relaciona connosco. E para além disso, não menos importante, aproximam-se mais da ideia básica e da ortodoxia cristã que defende que Deus tem três atributos, de omnisciência, omnipresença e omnipotência, que são distintos entre si, apontam para direcções diferentes. Estas descrições dos atributos de Deus são úteis para enriquecer a nossa compreensão Dele; pessoalmente, julgo que misturá-los obscurece a nossa compreensão, e potencialmente, pode contribuir para iniciar as pessoas no processo de pensar que Deus "é tudo", coisa que já não faz parte da ortodoxia cristã, mas sim de outras ortodoxias.

Sobre a omnisciência de Deus, pegando no texto da pregação e alargando-o a todo o capítulo 139, encontro as seguintes ênfases.

1. Deus conhece a nossa história pessoal. De onde viémos e para onde vamos. Conhece os acontecimentos marcantes da nossa vida. Acontecimentos que podem ter sido causa de outros acontecimentos, e ter tido efeitos sobre nós, sobre a nossa personalidade e a nossa compreensão das coisas. Se alguém acha que teve uma infância difícil, Deus sabe isso. Se houve um episódio traumático, Deus sabe isso. Se cometemos erros, Deus sabe isso. Se o servimos bem, Deus sabe isso. Deus compreende-nos também desta maneira.

2. Deus conhece o nosso interior, o que suponho que inclua pensamentos, intenções, raciocínios. Sei lá, o nosso mundo interior é vasto. As implicações disto são tantas. Por exemplo, que podemos enganar toda a gente com as nossas máscaras sociais, mas Deus não vai nessa. Que podemos prestar contas às pessoas pelas mentiras que dizemos, mas Deus conhece até as mentiras que impomos as nós mesmos. Que podemos ser hipócritas com pessoas, mas não com Deus – do seu ponto vista, as nossas segundas intenções aparecem em primeiro. Deus sabe quando nos esforçamos. Deus sabes quando não quisemos ofender alguém. Deus conhece as nossas preocupações e tristezas.

3. Qual é a nossa reacção a esta "ausência de privacidade"? Conforto ou desconforto? Parece-nos desejável ou indesejável? Para um ateu típico, é frequente comparar a descrição de Deus à de um estado totalitário, com direitos abusivos e perversos sobre os seus súbditos. Chegam a descrever Deus como um voyeur. No caso do salmista, ele pede a Deus que exerça este atributo sobre ele: "sonda-me , ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhece os meus pensamentos".

4. Deus sabe tudo o que acontece. Isto quer dizer que mesmo que aconteça no desconhecimento de todos, a injustiça continua a ser igualmente injusta aos olhos de Deus, e é n'Ele que o salmista espera por justiça. Mesmo que as transgressões sejam aparentemente coisas inofensivas para as pessoas (falar mal de Deus, usar o seu nome em vão) não são menos injustas por isso, e não deixam de ser contadas como tal.

5. Uma possibilidade de aplicação seria na linha de: Como é que nos vamos dar a conhecer aos outros. Da forma que Deus nos conhece, ou enfeitados com as máscaras através das quais Deus passa através sem esforço? Porque é que as usamos? Quais usamos?

No tempo de louvor, leu-se uma parte do Salmo 51, e a minha atenção desviou-se para o v.6, porque estava sublinhado.

"Eis que amas a verdade no íntimo e no oculto me fazes conhecer a sabedoria".

Teria sido um bom versículo para encerrar uma pregação sobre a omnisciência de Deus.

sábado, 13 de janeiro de 2018

God... Fuck...



Quando fizeram este filme, suponho que tenham decidido na sua preparação que o seu único personagem não seria pessoa de falar sozinho. É impossível não reconhecer que, nas desventuras deste enredo, eu enquanto eu mesmo teria falado muito, mas muito mesmo, quer estivesse sozinho ou acompanhado, ou até mais se sozinho do que acompanhado. Eu fico muitas vezes a trabalhar depois da hora, sozinho, e qualquer câmara de vigilância confirmaria o que digo.
Mas o personagem do filme é calado, e o espectador fica em suspenso: qual é o azar que vai obrigar o homem a suspirar umas palavritas. Os próprios argumentistas deverão ter pensado nisto. O que é o que o vai fazer falar, e nesse momento, o que é que ele vai dizer?
Por fim, o azar de tal dimensão acontece, em parte por distracção. E ele lamenta: God... Fuck (Deus... foda-se).
Eu acho que foram palavras bem escolhidas, na medida em que representam duas opções sempre presentes na angústia. Quando se está em situações limite, em que não se sabe para onde nem para quem virar - quando tudo está perdido - duas possibilidade acabarão por se apresentar como solução: o Bem, a elevação, a inteligência, o amor, Deus, ou o Mal, a escuridão, a brutalidade, o medo, o Diabo. Pode assumir muitas formas, mas pelo menos eu, e sobretudo no trabalho, que tem sido muito dominante sobre mim nos últimos anos, sinto que tenho que dar a volta por cima, ou dar a volta por baixo. Já o fiz das duas maneiras, mantendo sempre que o Bem é preferível ao Mal, e que a opção pelo Mal não deve ser encarada nem como uma nova versão do Bem, nem como uma alternativa de igual valor, mas como um Mal necessário, dadas as opções em dado momento.
Porque tenho consciência disto, naturalmente perdi bastante triunfalismo na minha fé cristã. Eu afirmá-la-ia triunfalmente se tivesse uma experiência continuada de opção pelo Bem como resposta aos problemas com que me tivesse deparado. Mas não sucedeu assim.
Por outro lado, o que ainda dá sentido a isto tudo é que aquilo a que tradicionalmente designamos Bem ou Mal, seguramente não o serão aos olhos de Deus, que são os olhos que importam. O caso mais óbvio é o da ira, que até figura na lista dos sete pecados mortais (que enquanto evangélico, desvalorizo e rejeito sem meias medidas) e que como tal, descreveria a purificação do Templo que Jesus fez como um acto pecaminoso. No entanto é só um comportamento natural do mesmo indivíduo que antes tinha dito "bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça".
E sim, quando protesto sozinho no trabalho já muito para além da hora de saída contra todos aqueles azares, problemas e descoordenações, também são essas a palavras que mais suspiro - God, fuck. Só que em português, claro.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A minha fé não é sofista

"(...) ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos, e assim haveis crido."

Eu gosto muito que a fé em que creio tenha o seu Livro povoado, aqui e ali, desta sentenças anti-sofistas, e que como tal, sustente uma cosmovisão razoavelmente racionalista. A ressurreição de Jesus foi um episódio histórico, e isso pode ser verificado através de centenas de testemunhas oculares que, naquele tempo, ainda eram vivas e capazes de descreverem aquilo que viram e experimentaram em momentos e lugares diferentes. E como tal, a mensagem que brota da vida de Jesus não pode ser diversificada em todas as direcções e mais algumas, nem faria sentido, se a mensagem que os apóstolos anunciaram foi produto dessa mesma experiência comum. Por mais que "dependa do observador", nunca pode depender assim tanto que se desprenda da origem. E com que critério verificamos? Fácil, por exemplo, acontece que "ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos, e assim haveis crido".

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Eu chamo-lhe a temática da desistência



"Se estar certo é munição, de que serve ter razão?"



"E quem não é do bem então chega chega sai sai sai"



"Eu convido todo mundo para a minha festa
Só não convido você porque você não presta"

terça-feira, 25 de julho de 2017

Contra quem está contra o Gentil Martins - 5

Uma pausa no comentário ao documentário. O que me sobressai disto tudo é a aniquilação de qualquer possibilidade de uma cultura de debate (aquela pela qual suspirava uns posts atrás num debate Eagleton vs. Scruton) sobre o assunto da homossexualidade. Isto é uma coisa um tanto singular, pelo menos quando comparado com a discussão do aborto ou da eutanásia, ou até da adopção por casais do mesmo sexo, em que alguns argumentos foram esgrimidos. Quanto à homossexualidade em si mesma, os defensores do movimento LGBTQ habituaram-se a reagir àqueles que normalmente são chamados trogloditas, como se classificá-los dessa maneira fosse uma forma de argumentação. Aliás, "classificar-nos", na verdade, porque sem dúvida que me encaixo no perfil habitualmente traçado do "troglodita homofóbico".
Mas neste episódio quiseram aplicar a mesma receita a um dos médicos mais conceituados do país (e ao mesmo tempo, num taticismo revelador, defender as experiências parentais de Cristiano Ronaldo), e continuar a dispensar os "argumentos" pelos quais suspiro à tanto tempo, num assunto que, segundo a narrativa gay, tem tanto de biológico como de objectivo, logo sujeito a arumentação científica. Felizmente, esta atitude trumpiana não passou despercebida e foi castigada com atenção mediática prolongada. Só por isso, as palavras do médico já valeram a pena.

Contra quem está contra o Gentil Martins - 4

Quanto ao que aprendi de raíz, uma coisa totalmente nova é que poderá haver uma diferença morfológica no cérebro de um homossexual, e isto talvez seja o melhor argumento a favor da narrativa gay que já ouvi. Esperando não entrar em incorrecções técnicas, mas explicavam que normalmente os homens têm um cérebro mais assimétrico, e as mulheres um cérebro mais simétrico. Mas que em gays, o cérebro será mais simétrico e em lésbicas mais assimétrico. E que esta morfologia do cébrebro não é um desenvolvimento posterior, mas uma condição de nascença. Se fosse gay, acho que agarrava-me a isto para me legitimar e responder às afirmações do médico Gentil Martins.
Claro que estes dados estão associados a um estudo estatístico que os considera estatisticamente relevantes. Seria a amostra suficientemente abrangente?...
Não disseram, se havia casos de pessoas com relacionamentos heterossexuais “bem sucedidos”, chamemos-lhe assim, que encaixassem no perfil de cérebro de um homossexual. Acho que isso seria importante. Também não arriscaram que se esta for uma condição de nascença, mais valia fazer uma ressonância magnética a todas as crianças para lhes poupar as angústias futuras de descobrir a sua orientação sexual durante a adolescência, com todos os riscos e chatices que daí decorrem.

Contra quem está contra o Gentil Martins - 3

No tal programa do Odisseia aprendi mesmo muitas coisas. Mas antes de mais, houve também algumas confirmações. Por exemplo, uma afirmação pela qual já me olharam como a um troll (mas é que eu tinha lido um artigo sério sobre o assunto), que não existe homossexualidade em mais nenhuma espécie do mundo natural. Em quase todas as espécies existem práticas sexuais com indivíduos do mesmo sexo, mas em nenhuma há uma preferência. É um fenómeno peculiarmente humano. Mas claro, há sempre uma excepção, à qual alguns cientistas se agarraram com unhas e dentes, e falaram de uma espécie específica de carneiros, em que há uns 10% de indivíduos que poderiam ser comparáveis ao que entre humanos designamos por gays. Sim, gays, porque isto só acontece com indivíduos do sexo masculino.
Aliás isto tem um outro paralelo com humanos. Ao que parece, enquanto que um homem gay, uma vez assumindo a sua homossexualidade, raramente volta atrás, e tem uma resposta coerente com isso ao estímulo sexual, já no caso das mulheres, há muitos tons de cinzento. Não só há muitas mulheres que têm a espaços relações homossexuais e heterossexuais, como mulheres homo e heterossexuais têm respostas não padronizáveis a estímulos sexuais homo ou heterossexuais. É confuso e deixa confundidos os estudiosos do assunto, ao que parece. Para já, será mais exacto dizer que TODAS as mulheres são bissexuais, do que ALGUMAS sejam lésbicas. Foi o que me pareceu ficar implícito. Isto já tinha saído numa notícias em jornais portugueses há uns dois anos, e até teve direito a uns links nas redes sociais, mas duvido que tenha ficado como parte do conhecimento popular sobre a homossexualidade.

Contra quem está contra o Gentil Martins - 2

Ainda sobre esta polémica do Gentil Martins, suponho que o recomendável seja, como em tudo, as pessoas informarem-se um pouco antes de começar a condenar (essa atitude tão pouco científica). Pessoalmente, vi no mês passado no Odisseia o programa «Gay ou Hetero: é possível escolher?», e aprendi uma catrefada de coisas, o que só me convence de que a favor ou contra, o discurso sobre o tópico homossexualidade é quase exclusivamente estereotipado e preconceituoso, para além de politizado. E diga-se de passagem, praticamente inexistente na sua vertente científica, muitas vezes, por interesse da própria comunidade LGBTQ.
Chega a ser cómico que de um assunto do qual se espera uma uniformidade de opiniões (“mainstream científico”, dizia há minutos o Aurélio Gomes no programa Inferno, do Canal Q), em que facilmente se diz “toda a gente sabe que”, a linha do programa do Odisseia, abertamente pro-gay, reconheça que existam duas escolas de defesa da cientificidade da homossexualidade: a americana mais orientada para a genética e para as ciências objectivas, e outra mais europeia e inclinada para as ciências sociais. É nela que muitos depositam a sua esperança de virem a ser explicados e legitimados cientificamente, e isto é evidente tanto pela quantidade de voluntários para as experiências científicas, como pelos que doam os seus orgãos após a morte para esta área de pesquisa.
No entanto, quanto ao que é a homossexualidade, do ponto de vista da ciência, o melhor resposta que se tem até ao momento, é que é um assunto complexo e que ainda tem muito caminho pela frente, mais coisa menos coisa... Pelo que condenar o Gentil Martins é para já um salto de fé, coisa impossível do ponto de vista da ciência, que é o campo em que esta discussão se deve situar, quando o que está em causa são as afirmações de um médico enquanto médico.

Contra quem está contra o Gentil Martins - 1

Tenho tentado perceber a indignação das pessoas sobre as declarações do Gentil Martins, e lamento, mas discordo da vossa indignação. As afirmações do médico são legítimas porque o assunto da homossexualidade é, nas mais variadas ciências, um assunto em aberto, e como tal, não faz sentido fazer uma censura cabal, como se existisse uma ortodoxia científica, sobre algo que não se sabe ao certo o que é. Não é comparável a outros temas que reunam muito consenso apesar de vozes críticas, como por exemplo, o aquecimento global. Poderá no, entanto, ascender a essa categoria se alguém propuser uma explicação científica da homossexualidade. Aí, poderão condenar sem reservas o Gentil Martins pelo que disse. Até lá, esforcem-se e apresentem argumentos que o contestem. Dizer que “a homossexualidade já não faz parte da lista de doenças psicológicas de mil novecentos e sessenta e tal” não chega. A gente quer uma explicação pela positiva; queremos os “porquês”, se possível do ponto de vista da divulgação aos leigos nas ciências, como se faz com todos os seus ramos em que há certezas firmes, da biologia à química, da física à matemática.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Travessia pelo deserto

Se Deus impôs aos israelitas uma longa e castigadora peregrinação de quarenta anos pelo deserto, parece também que não faz parte dos Seus planos deixar-nos a rir destas pessoas, tornando a própria leitura sobre esta fase numa espécie de travessia pelo deserto.
Com hiatos absurdamente grandes, se não mesmo preocupantes, vou deixando que a minha leitura da Bíblia seja orientada pelos livros A Sós Com Deus. E recentemente, calhou o livro de Números, que se tem revelado a travessia no deserto de que aqui falo, mesmo que, como qualquer deserto, tenha os seus oásis, como por exemplo, o episódio da burra de Balaão.

No geral, o livro de Números tem sido para mim uma seca que faz jus ao nome. Tem mesmo números, aos montes. E não só disso, mas também genealogias, que não são nada divertidas, e custa até a perceber o que poderão ter de edificante na vida de uma pessoa. Ontem então estava complicado, os capítulos 28 e 29. Uma lista de ingredientes para os holocaustos a celebrar nas várias ocasiões possíveis. Decidi por fim respeitar o género literário em que este texto se insere - o género lista de compras - para perceber o que tinha a dizer ao leitor não estudioso como eu. E assim sendo, transcrevi a lista como se de compras e recados se tratassem, e finalmente fez-se alguma luz.

Tornou-se mais fácil perceber coisas básicas, como por exemplo, que muitas das quantidades de cordeiros, carneiros e bezerros, repetem-se (embora haja algumas cerimónias que exijam um bode expiatório. Também torna-se mais evidente com são as unidades de medida. Um "efa" é para a farinha, que quererá dizer que é uma unidade de peso ou de volume, e o "hin" é para os líquidos como vinho e azeite, logo, seguramente uma unidade de volume.

Todos os sacrifícios parecem ser compostos por um animal, pelo seu acompanhamento - farinha com azeite - e por bebida - vinho - a que se dá o nome de "libação". Quero com isto dizer que representam uma refeição completa. Se Deus se tivesse revelado no Velho Testamento, sei lá, aos franceses, tudo seria bem mais complicado, com entradas, aperitivos, sobremesa, limpa-palato. Assim é mais simples.

Acho engraçado as proporções definidas para a farinha com azeite e para o vinho consoante o animal a sacrificar - aparentemente proporcionais ao porte do animal - extremamente fáceis de memorizar e intuitivas aquando da utilização. 3/10, 2/10, 1/10 para a farinha com azeite; 1/2, 1/3, 1/4 para o vinho. Esta é uma abordagem que tento sempre ter no trabalho, quando há números a definir, que sejam proporcionais e bem comportados para serem mais fáceis de usar, sobretudo quando a pressão sobe.

Uma coisa que parece ser importante é que há um "sacrifício perpétuo" um culto a ser prestado todos os dias, e os restantes, que são periódicos, como os da "luas novas", ou que aludem a momentos específicos, como a Páscoa com a fuga do Egipto, ou o das Primícias, que suponho que tenha a ver com o agradecimento pelas colheitas. E acho que aqui há algo a reter para além do conhecimento numérico deste texto, na medida em que o nosso culto a Deus deve ser contínuo e diário (coisa para a qual o A Sós com Deus será um auxiliar), mas que deve acumular com o agradecimento por eventos específicos (o que implica primeiramente reconhecer que eles aconteceram e assinalá-los).

É complicado. Parti tanta pedra por um texto da Bíblia porque estou de férias. Noutra altura, teria passado por cima dele sem ter retido nada, como se não o tivesse lido. Nisto, conhecimento prévio ajuda muito, e talvez tivesse poupado algum deste trabalho, e permitido ir mais directamente às conclusões que podemos tirar deste texto. Entretanto, o deserto não terminou, e esperam-me mais uns dias de travessia.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Já que o canal 2 está a passar animação japonesa ao fim-de-semana


Nos filmes do Miyazaki, bem como nos do Isao Takahata, há quase sempre algum momento em que uma tarefa manual é representada com detalhe. Não só isso, mas em quase todos desempenhar bem um tarefa manual faz o enredo andar para a frente. Falo de coisas como limpar, cozinhar, ou até fazer contas de matemática à mão, executadas de uma forma tão natural e optimizada que parecem feitas por um robot programado. Não poucas
vezes, o valor do desenrascanço tambem é louvado.
Embora um desenho animado seja inevitavelmente fantasioso na forma não-fotográfica como representa a realidade, não quer dizer que o seja na forma como a descreve, nas suas dinâmicas, possibilidades, intervenientes. No caso destes criadores japoneses, creio mesmo que nos despertam para a realidade como ela é, nem que para isso recorram aos deuses da tradição religiosa japonesa para personangens. Eles representam algo de muito real.
Dito isto, por vezes é triste que o adepto típico destes filmes seja avesso a este lado tão importante do que estão a ver, reduzindo-os a uma experiência estética de algo completamente diferente, mas só isso, e que pouca coisa trazem de volta à sua vida. Um pouco como o fã típico do Senhor dos Anéis, que pode reduzir a sua riqueza a quase nada se se limita a coleccionar nomes e lugares totalmente diferentes da realidade do dia-a-dia.
"Alienação" é a palavra que normalmente é invocada nestes momentos. Contra isso, suponho que o remédio seja cozinhar a própria comida e limpar a própria casa. E se os houver à disposição, aprendê-lo com velhotes. Acho que isso faria o velho Miyazaki feliz.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ler os Irmãos Karamázov é fácil e difícil

Ler Os Irmãos Karaázov é fácil e difícil. A história não é complicada, mas os seus personagens são-no. A acção desenrola-se não em grandes eventos, mas sobretudo, como num filme do Tarantino, em conversas, muitas vezes a dois, muitas vezes longas, muitas vezes contraditórias. Uma qualquer conversa do dia-a-dia é fácil de acompanhar, mas não quer dizer que mais tarde nos lembremos dela como uma peça chave de uma história. Mas neste livro, as peças chave são essas conversas, que podem parecer que não desenvolvem muito a história, mas aumentam sempre a nossa compreensão das personagens. O que interessa ali são as pessoas, logo as pessoas, de entre as quais, pessoas nem por isso excepcionais ou brilhantes, mas pessoas perfeitamente normais, nas quais posso encontrar semelhanças com uma série de conhecidos meus.
Na prática, não o estudando, mais do que ler, este é um livro com o qual se convive. A sério. São dois volumes espessos. Conto manter um relacionamento mais genuíno e duradouro com estas páginas de papel do que com muitas pessoas de carne e osso.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Conversar em público



Se não for visto pelo que é dito, pelo menos que seja visto para aprender como se conversa em público. Sem interromper, sem desviar do assunto sem aviso, respondendo ao que o interlocutor diz e não a estereótipos, conhecendo previamente as suas posições, identificando os pontos em que se concorda e se discorda, não anulando a possibilidade de convergência para efeitos táticos. Disto nunca vi em Portugal. Não sei se esta cultura de debate é um exclusivo britânico. Se for, é uma tristeza se se tornar mais distante ou inacessível aos restantes países europeus após o Brexit.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Não maltratem as certezas




Eis um ramo de pensamento que a mim me amedronta: que a certeza começa guerras, que acabamos por impor aos outros aquilo que acreditamos ser verdade.
Eu gostei muito desta entrevista em comparação com a qual, quase tudo o que se ouve neste segmento do programa parece um monte de banalidades papagaiadas sem se pensar muito nisso, sem custar muito a quem o diz.
Mas retive este momento, porque é uma afirmação forte, que acredito que represente o pensamento mais genuíno e sincero de muitas pessoas.
Uma das coisas que mais me inquietou durante o Silêncio foi precisamente que no seu retrato dos cristãos, em nenhum momento houve uma tentativa de organizar uma rebelião, ou sequer uma fuga do país. Não sei se isto corresponde à verdade histórica, mas vou supor que sim. Temos os cristãos, dogmáticos nas suas crenças, a morrerem sem qualquer hipótese de sequer exprimir a sua fé - as suas certezas - e os seus perseguidores, budistas e como tal, relativistas em vários aspectos, a imporem a sua regra pelo uso da força. Não que tivessem uma verdade central a impor, mas apenas pela possibilidade de serem expostos a uma ideia considerada "perigosa" - perigosamente contrária às suas. Esta "não-certeza" violenta seria algo sobre a qual perguntaria a opinião de Andrew Garfield, porque parece virar de pernas para o ar a sua afirmação.


Por outro lado, nesta fase em que tudo justifica a eleição de Trump - e quase todas as justificações me parecem acertadas - também perguntaria se o momento que vivemos não foi produzido por um vazio criado por uma série de certezas que foram derrubadas ou pelo menos desgastadas sem que se tenham encontrado substitutos à altura. Será que certezas testadas, fortes e respeitadas, não nos teriam impedido de cair no meio deste vendaval? E será que a nossa possível sobrevivência a este tempo não será conseguida à custar de encontrar as certezas que ainda restam, algumas das quais que já julgávamos perdidas?
Não saber relacionar com a certeza não devia implicar demonizar a certeza. Esta parece-me sim uma das ideias mais perigosas de entre a oferta disponível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Uma biologia da solidão

Eu sou pessoa de trautear. Esteja ou não a fazê-lo, trago quase sempre alguma música na cabeça, e não exprimi-lo trauteando, assobiando, tamborilando num objecto qualquer - para não perturbar os outros - é um acto de contenção. Quando estou no trabalho e por alguma razão me apanho sozinho na sala, imediatamente começo a fazer barulhos assim que a última pessoa a sair fecha a porta.
Como estamos de costas uns para os outros, estou constantemente habilitado a passar pelo embaraço de, sei lá, desatar a cantar despreocupadamente uma das foleirices da minha banda sonora mental, naquela sala consagrada ao fabrico de electrodos, quando afinal ainda estava um colega a um canto que eu não tinha reparado.
Nunca aconteceu. De tempos a tempos, penso nisto. Que ao longo de tantos anos, tal coisa nunca aconteceu mesmo quando seria tão provável de acontecer. É como se um sentido pouco falível detectasse um vibração específica presente no ar e informasse inconscientemente "estás sozinho e passas despercebido, faz como bem entenderes". Como se fosse possível propor uma biologia da solidão, na qual o corpo reagisse ao estímulo de estar sozinho de uma maneira própria, que de outro modo não seria possível. Da mesma maneira que certas aves comportam-se de maneira auto-destrutiva no cativeiro, ou os seres humanos aguentam mais tempo sem respirar se estiverem debaixo de água. Talvez este mecanismo pudesse ser accionado de formas artificiais. Talvez servisse até para explicar que pessoas mais desinibidas se vêem mais sozinhas no mundo, sem nunca darem por isso.