segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Livre como um passarinho

Encontro graça no dizer "livre como um passarinho", como alguém que não sabe nem se lembrou de alguma vez procurar saber de onde vem, ou como deve ser preservada. Tem outras coisas em que pensar, mais importantes para a sua subsistência ou felicidade - tornam-se sinónimos - imediata. Na maior parte das vezes são cem por cento exactos na forma como se auto-elogiam.
Ou seja, estou a falar de "liberdade" e de ser-se "passarinho".

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Uma temporada, dez episódios



Sou bem capaz de vir a acompanhar esta série, enquanto suspiro por um outro tempo, com outra forma de pensar, que cada vez parece mais improvável que tenha sido real, cujos ecos são presa fácil dos soundbites que nos determinam.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A partir de certa altura, a música mudou

A partir de certa altura, a música mudou. O que se ouvia quando eu andava na escola secundária eram coisas como Limp Bizkit, Papa Roach, Slipknot, Linkin Park, Incubus, Staind, etc, etc. Havia uma formula repetitiva e segura. Tinha ser pesado, gritado, tinha de ter asneiras, de apelar à desobediência em si mesma, tinha de falar de relacionamentos clinicamente disfuncionais (frequentemente, através da terminologia dos anjos e demónios), tinha de mostrar muita raiva para só depois mostrar que também tinha outros sentimentos. Através desta matriz simples, sabia-se o que era "bom". Pessoalmente, raras vezes gostava, e muitas vezes dava ares de esquisito ou selectivo à custa disso, mas era como se soubesse que a música podia ser muito melhor do que aquilo, mesmo sem ter grandes contra-exemplos para apresentar.

Havia ainda o domínio insuportável do hip hop comercial. Quando fui à viagem e finalistas a Lloret del Mar, julgo que ouvi mais de cem vezes In da Club, do 50 Cent.

Eu fui para a universidade em dois mil e três, e isso coincidiu com a tal mudança da música. Os vídeos mudaram, a sonoridade mudou, a roupa mudou, a figura do DJ deixou de existir nas bandas. Os assuntos das músicas mudaram radicalmente. Não só mudaram radicalmente, como o que estava para trás foi rejeitado como sendo "de mau gosto". Figuras públicas fizeram declarações a enxovalhar os Limp Bizkit, como Courtney Love (viúva do Curt Cobain que Fred Durst tem tatuado no peito) , ou baixista dos Rage Against the Machine (que seria uma das principais inspirações da banda).
Este vídeclip há-de permanecer como o registo histórico da perplexidade da fase anterior. Para perceber o sketch inicial, deve-se recorrer ao vídeo de Someday, dos Strokes.

Entretanto, é como se esta mudança tivesse deixado uma geração (a da minha idade) musicalmente orfã. Alguns ainda gostam de ir aos festivais assistir à sua "velha guarda", incapazes de gostar, no entanto, de toda a música feita depois de 2003 por essas mesmas bandas. Outros, cortaram por completo e são incapazes de elogiar aquela música enquanto música, podendo no entanto elogiá-la enquanto banda sonora da sua adolescência (da mesma maneira que olham com saudosismo para outros disparates que possam ter feito).

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Perspectivas

- Comam e bebam, porque amanhã morrerão! - acusou com estrondo.
- Pois como e bebo, porque amanhã morrerei! - devolveu triunfante.
- Então, comam, e bebam, porque amanhã morrerão - respondeu sombriamente.
- Deixem-me comer e beber, porque amanhã morrerei, - concluiu amargamente.

domingo, 13 de setembro de 2015

Rádio portuguesa melhor do que a televisão

A televisão portuguesa é miserável em geral, mas a rádio nem por isso. Neste horário, a RTP 1 está a dar o Cook Off, na RTP 2, os Borgen, na SIC, o Peso Pesado (ouvi bem? com adolescentes), e na TVI o Pequenos Gigantes (não faço ideia do que seja). Já na Antena 3, está a dar o Coyote.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Fotografem

Uma pessoa visita, deslumbra-se, tira fotografias. No dia a seguir, no regresso, passa uma avião sobre o carro, muito baixo, a fazer muito barulho. Passado mais um bocado, percebo porquê, ao distanciar-me o suficiente, para ver fumo a elevar-se sobre uma encosta, onde o avião combate o incêndio. Quem sabe neste lugar que visitei no dia anterior?

                               

Talvez esta loucura generalizada de tirar fotografias a tudo o que mexe e que não mexe, venha a servir de testemunho histórico de como certas coisas foram e deixaram de ser, ao ponto de gerar uma incredulidade só possível de contrariar com fotografias mesmo.
Talvez, por exemplo, turistas irritantes que tenham visitado e fotografado os locais arqueológicos destruídos pelo Estado Islâmico venham a ser essenciais para a preservação da memória daquela cultura perdida. Claro que com a moda das selfies, vai dar mais trabalho aos arqueólogos para editar e remover os sorrisos cozinhados para que o verdadeiro motivo de interesse, antes eclipsado por cabeças, possa evidenciar-se. É uma questão de ver o lado positivo das coisas, suponho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Eu reajo ao limite das quotas de sardinha


Com um hamburguer de cavala (experiência a nunca mais repetir).

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Antes e depois de C. S. Lewis

Eu não li propriamente muita literatura cristã, mas nisto do Chesterton, há um aspecto que sobressai. Penso que terá sido o único livro sem uma citação ou referência a uma ilustração do C. S. Lewis.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Há uns meses atrás

De cada vez que a Rússia desafia as fronteiras da Europa, saem alguns F16's da base aérea de Monte Real em exercício militar. É uma forma, que não apenas as notícias do jornal, de sentir a sombra real de um possível conflito. Eu, que quando durmo, sonho muito com guerras, invasões, armas, veículos militares - cada um tem as suas pancadas - vejo-me a assomar à janela da fábrica, a levantar os olhos para o céu, e encontrar dois caças num combate de proximidade, a curvar em ângulos apertadíssimos, a disparar as suas metralhadoras de calibre estupidamente grande, com todas as balas perdidas a produzirem danos colaterais imensos no mundo do solo, enquanto torço para que o piloto português - por quem torço - goste de tourada, e assim defenda melhor os interesses do país, até que, contra todos os prognósticos por Portugal não ter tradição na prova, o MIG é atingido, despenhando-se numa explosão violenta, produzindo assim ainda maiores danos colaterais. Cá em baixo, no mundo do solo, festejamos o golo. Tiram-se selfies. Alguns não podem esperar e vão ao Youtube ver a repetição. Outros correm para os carros, para ir festejar na Rotunda do Vidreiro.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Diálogo

Foi com especial curiosidade de me explicaram há algum tempo que os primeiros filósofos da Grécia antiga escreviam a sua filosofia sob a forma de diálogo. Depois, a partir de Aristóteles, predominou o ensaio.
Numa primeira impressão, isto causou estranheza, por um diálogo parecer uma coisa tão pouco "científica" - adoptar o ensaio seria uma consequência natural do progresso do pensamento. Mas à segunda impressão, surgiu a pergunta: porque é que esse método se perdeu?
Pessoalmente, a minha experiência diz que se ler um livro, vou memorizar muito mais as partes sobre as quais me imaginaria a conversar com alguém. Talvez essa seja o primeiro teste à existência de pontes com o mundo real - dá para falar deste parágrafo a outra pessoa?
Seguramente que seria um teste à inteligência de quem escreve. Porque qualquer pessoa pode enumerar uma série de factos numa prosa mais ou menos relacionados entre si, mas nem todos conseguem fazê-lo tendo em conta a percepção dos outros, e consequentemente, levantando contra si mesmo as questões que outros levantariam.
Sempre vi o conhecimento como uma coisa meio comunitária. Vai-se falando daquilo que nos enriquece, ouve-se a opinião de outros, filtra-se o lixo, ajusta-se o ritmo, e assim, cozinha-se uma espécie de "caldo do conhecimento seguro", cada vez mais rico, cada vez mais apurado.
Esquecer o diálogo na construção de opiniões é como que, numa primeira instância, desistir dos outros porque se está disposto a ficar sozinho com a Razão - até que é corajoso - mas numa segunda instância, meio caminho andado para se construir ideias altamente pessoais, abstraídas da realidade, moralmente não provadas.
Havendo sempre o risco de nos tornarmos escravos do que pensamos que os outros pensam, ainda assim parece-me acertado dizer que pessoas precisam de pessoas, nem que seja imaginadas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A vida é dura

A vida é dura ao descobrir o tempo que demoro a lavar a louça do jantar e repor alguma ordem na cozinha: exactamente um episódio dos Simpsons.
Por outro lado, porque tenho aquela coisa que permite por os programas a andar para trás, e podia estar a ver os Simpsons como se fossem dez horas quando eram na realidade dez e meia.
Também porque já lá vai um bocado, mas os meus nós dos dedos ainda ardem por ter manuseado uma pequena tira de malagueta sem luvas à prova de radiação nuclear.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Ao ver Inside Llewin Davis

Empatizo com a solidão de Llewin e da sua arte, incompreendida no seu tempo, mas hoje totalmente aceitável. Um pouco como um físico teórico que postula a existência de um Bosão de Higgs, e pode muito bem ser visto como um louco, até que o físico experimental confirme que afinal tinha razão.
Ser fiel ao que se sabe ser bom e verdadeiro, mesmo quando isso é mal aceite pela maioria, é um valor que tem de ser apregoado nestes dias de sofismo generalizado.
No final do filme, aparece Bob Dylan a iniciar um concerto seu. Ele é o físico experimental, que - sabemos hoje - iniciaria a mudança de paradigma que daria a razão a Llewin Davis. A sua música era realmente boa. A aparição de Bob Dylan parece ser uma recompensa deixada a quem torce durante o filme por aquele protagonista cheio de defeitos, mas cuja música não podia ser ignorada.


É engraçado que depois de escrever os parágrafos acima, fui ler os comentários ao vídeo no Youtube e encontrei isto:

One reason why Llewyn Davis wasn't achieving success as a solo performer in the film was that his style was 40 years ahead of it's time- all emotion and sensitivity. Not sure who created the current taste for this type of peformance...Will Oldham? But back in the early 60's this performance would have seemed hopelessly introspective... 

+Stephen Charman Totally agree with your original point, though I wonder if there'll ever truly be a time for Davis' style. He was an artist who believed that if he put all of himself into his art he would succeed. And the final blow to that faulty (sadly) belief was Dylan.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Ao ver Inside Llewin Davis

Não há como não sentir revolta profunda. No filme, este casting serviu para a beleza da obra do artista ser preterida por obras mil vezes inferiores por serem de artistas um pouco mais bonitos, digamos assim.



No fundo, faz lembrar as conversas que antigamente se tinham na igreja sobre a música e louvor. Na troca de argumentos, para certas opiniões sobreviverem, era sempre necessário encontrar beleza onde só havia fealdade, desinspiração, e até fingimento. São as pessoas que chutariam Llewin Davis para um canto para poder ouvir melhor o dueto Jim and Jean, ou o solo de Troy Nelson.
É o dono do bar, Pappi, que explica. Não é tanto que a música importe; as pessoas só vão ouvi-los porque querem sexo com a Jean, ou até com Jim.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

De resto

De resto, é este personagem que vai atraindo a minha atenção musical nos últimos tempos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Alegria infantil em abrir um embrulho

Há dias, senti a emoção já quase esquecida da alegria infantil em abrir um embrulho. Era o livro O Homem Eterno (Everlasting Man) do G. K. Chesterton, que tinha mandado vir pelo correio. Já estava há anos para o fazer, mas desta é que foi. Sentir isto é raro em mim por pelo menos duas razões que me consigo lembrar.
Uma é a minha relação com o dinheiro - detesto gastá-lo. Pelo menos em compras além das despesas correntes, fico sempre com medo de ter comprado uma inutilidade que vai encher mais a casa e esvaziar mais a conta, num duplo prejuízo financeiro-espacial. Há em mim um Ebenezer Scrooge a precisar constantemente de ser domado. Mas numa compra destas, adiada há tanto tempo e de valor tão seguro, não há grandes possibilidades de arrependimento.
Outra é a satisfação que posso tirar de alguma coisa fora de mim. Qual é a experiência ou o objecto que possa antecipar com entusiasmo sem reservas? Seja pela repetição, seja pela desilusão, não sobra muito mais que isto, livros do Chesterton, do C. S. Lewis e assim.
Entre ir ver o correio, abrir o embrulho e ir para o trabalho, espreitei apenas a primeira página. E imediatamente sorri:

"Quando certa vez perguntaram a Chesterton «que livro gostaria de ter consigo se fosse um náufrago numa ilha deserta», esperando talvez uma resposta profunda e elevada como «a Bíblia» ou «a Divina Comédia», respondeu com o óbvio «um manual de construção de botes».

O que é que há aqui para não antecipar com entusiasmo?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Primeiro o Relógio ou o Relojoeiro?

Eu gosto muito de ver o Cosmos: Odisseia no Espaço, quando apanho no National Geogaphic. Gosto mesmo, apesar da cegueira ideológica ateia de algumas ideias apresentadas, sobretudo quando alimentam a cultura popular com noções simplificadas sobre o curso da história e das ideias.
O programa que vi hoje foi sobre Newton, Halley e Hook. A tese apresentada por Neil Tyson (30:30) não tem nada de surpreendente. Antes de Newton, as pessoas viam o firmamento, com a sua ordem e padrões, como uma criação de um Relojeiro, que seria Deus. Depois das descobertas de Newton, a hipótese do Relojoeiro (a hipótese "Deus", que Tyson classifica de beco sem saída), deixa de ser necessária, já que percebemos as leis que regem o relógio. A haver Relojoeiro, será a própria gravidade.
O que fica por assinalar, é que também o próprio Tyson considera o universo um relógio - um relógio que funciona, como um relógio deve funcionar, com regras, de forma previsível. Algum tempo deveria ter sido gasto a explorar a hipótese de o firmamento não ser visto desta maneira, mas de uma forma caótica ou animizada. Numa cosmovisão dessas, que vestígio de expectativa haveria em tentar descrever o universo através de leis gerais e expressões matemáticas? Porquê pensar matematicamente sobre coisas que podiam ter personalidade - e até temperamentos irascíveis - ou ser simplesmente aleatórias? Neste episódio, Halley é retratado a ir ter com Newton cem por cento seguro de que os movimentos dos planetas em torno do Sol poderim ser determinados por leis matemáticas simples e elegantes. Mesmo apesar de Halley se descobrir privado dos conhecimentos matemáticos para dar conta do problema, acredita que alguém terá a matemática suficiente para a tarefa - esse alguém veio a ser Newton (o crente em Deus).
Então, porquê pensar no Universo enquanto Relógio, se não tivéssemos pensado antes no Relojoeiro que o criou? Num programa sobre uma mudança essencial no paradigma do pensamento, será justo ocultar esta questão básica? Não seria razoável imaginar por um bocado se uma revolução desta magnitude seria expectável noutras culturas em que o Universo não é um Relógio criado por um Relojoeiro?
Lamento ser chato, mas vou encontrando a energia para recusar acreditar em Deus da maneira que os ateus querem que acredite. Podem forçar ideias simples através da repetição, podem insistir em dizer que as religiões são essencialmente iguais, podem contar parcialmente verdades que dificilmente um leigo poderá contestar a um cientista. Uma pessoa faz o que pode, mas não é fácil. A reacção merecida seria fechar os olhos e os ouvidos a esta gente, mas a Bíblia diz para "examinar tudo e reter o bem" - ordem que o cientista médio dos dias de hoje desobedece com o maior desembaraço.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Despedidas de solteiro de noivos evangélicos

Estive anos e anos sem me estrear nessa coisa das "despedidas de solteiro". Recentemente, fui a duas, ambas em que os noivos são cristãos evangélicos, pelo que naturalmente foram dispensadas as rotas mais naturais - da discoteca e do striptease.
Numa delas, ocorreu até a felicidade de a melhor fotografia assumir um feitio cruciforme, a saber, a brincar a uma coisa chamada flyboard.


Uma excelente assinatura para um excelente dia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Nortada

Já agora, dando seguimento ao primeiro post deste blog, reproduzi mesmo num instrumento a música que me chamou a atenção no filme A Teoria do Tudo, ainda que dentro das minhas limitações. É sobretudo uma coisa de mim para mim.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Aquecer a guerra

Não sei em que ponto estamos na Guerra Fria, mas é só para avisar: estas munições abatem tanques russos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Agora a sério

A sensação é sempre a mesma. Que quando começo as férias, estou finalmente no período da vida real, que se segue a um ano menos duas semanas de uma ficção medonha, sem sentido nem final feliz, nem final de nenhum tipo. Agora sim há tempo para descansar realmente, para a higiene mental, para poder ser surpreendido.
A desproporção entre o tempo de trabalho e o tempo de férias é imensa, mas naquelas duas semanas persiste a sensação que a ficção terminou, que chega de brincadeira, e que posso agora começar a sério.