terça-feira, 25 de julho de 2017

Contra quem está contra o Gentil Martins - 1

Tenho tentado perceber a indignação das pessoas sobre as declarações do Gentil Martins, e lamento, mas discordo da vossa indignação. As afirmações do médico são legítimas porque o assunto da homossexualidade é, nas mais variadas ciências, um assunto em aberto, e como tal, não faz sentido fazer uma censura cabal, como se existisse uma ortodoxia científica, sobre algo que não se sabe ao certo o que é. Não é comparável a outros temas que reunam muito consenso apesar de vozes críticas, como por exemplo, o aquecimento global. Poderá no, entanto, ascender a essa categoria se alguém propuser uma explicação científica da homossexualidade. Aí, poderão condenar sem reservas o Gentil Martins pelo que disse. Até lá, esforcem-se e apresentem argumentos que o contestem. Dizer que “a homossexualidade já não faz parte da lista de doenças psicológicas de mil novecentos e sessenta e tal” não chega. A gente quer uma explicação pela positiva; queremos os “porquês”, se possível do ponto de vista da divulgação aos leigos nas ciências, como se faz com todos os seus ramos em que há certezas firmes, da biologia à química, da física à matemática.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Travessia pelo deserto

Se Deus impôs aos israelitas uma longa e castigadora peregrinação de quarenta anos pelo deserto, parece também que não faz parte dos Seus planos deixar-nos a rir destas pessoas, tornando a própria leitura sobre esta fase numa espécie de travessia pelo deserto.
Com hiatos absurdamente grandes, se não mesmo preocupantes, vou deixando que a minha leitura da Bíblia seja orientada pelos livros A Sós Com Deus. E recentemente, calhou o livro de Números, que se tem revelado a travessia no deserto de que aqui falo, mesmo que, como qualquer deserto, tenha os seus oásis, como por exemplo, o episódio da burra de Balaão.

No geral, o livro de Números tem sido para mim uma seca que faz jus ao nome. Tem mesmo números, aos montes. E não só disso, mas também genealogias, que não são nada divertidas, e custa até a perceber o que poderão ter de edificante na vida de uma pessoa. Ontem então estava complicado, os capítulos 28 e 29. Uma lista de ingredientes para os holocaustos a celebrar nas várias ocasiões possíveis. Decidi por fim respeitar o género literário em que este texto se insere - o género lista de compras - para perceber o que tinha a dizer ao leitor não estudioso como eu. E assim sendo, transcrevi a lista como se de compras e recados se tratassem, e finalmente fez-se alguma luz.

Tornou-se mais fácil perceber coisas básicas, como por exemplo, que muitas das quantidades de cordeiros, carneiros e bezerros, repetem-se (embora haja algumas cerimónias que exijam um bode expiatório. Também torna-se mais evidente com são as unidades de medida. Um "efa" é para a farinha, que quererá dizer que é uma unidade de peso ou de volume, e o "hin" é para os líquidos como vinho e azeite, logo, seguramente uma unidade de volume.

Todos os sacrifícios parecem ser compostos por um animal, pelo seu acompanhamento - farinha com azeite - e por bebida - vinho - a que se dá o nome de "libação". Quero com isto dizer que representam uma refeição completa. Se Deus se tivesse revelado no Velho Testamento, sei lá, aos franceses, tudo seria bem mais complicado, com entradas, aperitivos, sobremesa, limpa-palato. Assim é mais simples.

Acho engraçado as proporções definidas para a farinha com azeite e para o vinho consoante o animal a sacrificar - aparentemente proporcionais ao porte do animal - extremamente fáceis de memorizar e intuitivas aquando da utilização. 3/10, 2/10, 1/10 para a farinha com azeite; 1/2, 1/3, 1/4 para o vinho. Esta é uma abordagem que tento sempre ter no trabalho, quando há números a definir, que sejam proporcionais e bem comportados para serem mais fáceis de usar, sobretudo quando a pressão sobe.

Uma coisa que parece ser importante é que há um "sacrifício perpétuo" um culto a ser prestado todos os dias, e os restantes, que são periódicos, como os da "luas novas", ou que aludem a momentos específicos, como a Páscoa com a fuga do Egipto, ou o das Primícias, que suponho que tenha a ver com o agradecimento pelas colheitas. E acho que aqui há algo a reter para além do conhecimento numérico deste texto, na medida em que o nosso culto a Deus deve ser contínuo e diário (coisa para a qual o A Sós com Deus será um auxiliar), mas que deve acumular com o agradecimento por eventos específicos (o que implica primeiramente reconhecer que eles aconteceram e assinalá-los).

É complicado. Parti tanta pedra por um texto da Bíblia porque estou de férias. Noutra altura, teria passado por cima dele sem ter retido nada, como se não o tivesse lido. Nisto, conhecimento prévio ajuda muito, e talvez tivesse poupado algum deste trabalho, e permitido ir mais directamente às conclusões que podemos tirar deste texto. Entretanto, o deserto não terminou, e esperam-me mais uns dias de travessia.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Já que o canal 2 está a passar animação japonesa ao fim-de-semana


Nos filmes do Miyazaki, bem como nos do Isao Takahata, há quase sempre algum momento em que uma tarefa manual é representada com detalhe. Não só isso, mas em quase todos desempenhar bem um tarefa manual faz o enredo andar para a frente. Falo de coisas como limpar, cozinhar, ou até fazer contas de matemática à mão, executadas de uma forma tão natural e optimizada que parecem feitas por um robot programado. Não poucas
vezes, o valor do desenrascanço tambem é louvado.
Embora um desenho animado seja inevitavelmente fantasioso na forma não-fotográfica como representa a realidade, não quer dizer que o seja na forma como a descreve, nas suas dinâmicas, possibilidades, intervenientes. No caso destes criadores japoneses, creio mesmo que nos despertam para a realidade como ela é, nem que para isso recorram aos deuses da tradição religiosa japonesa para personangens. Eles representam algo de muito real.
Dito isto, por vezes é triste que o adepto típico destes filmes seja avesso a este lado tão importante do que estão a ver, reduzindo-os a uma experiência estética de algo completamente diferente, mas só isso, e que pouca coisa trazem de volta à sua vida. Um pouco como o fã típico do Senhor dos Anéis, que pode reduzir a sua riqueza a quase nada se se limita a coleccionar nomes e lugares totalmente diferentes da realidade do dia-a-dia.
"Alienação" é a palavra que normalmente é invocada nestes momentos. Contra isso, suponho que o remédio seja cozinhar a própria comida e limpar a própria casa. E se os houver à disposição, aprendê-lo com velhotes. Acho que isso faria o velho Miyazaki feliz.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ler os Irmãos Karamázov é fácil e difícil

Ler Os Irmãos Karaázov é fácil e difícil. A história não é complicada, mas os seus personagens são-no. A acção desenrola-se não em grandes eventos, mas sobretudo, como num filme do Tarantino, em conversas, muitas vezes a dois, muitas vezes longas, muitas vezes contraditórias. Uma qualquer conversa do dia-a-dia é fácil de acompanhar, mas não quer dizer que mais tarde nos lembremos dela como uma peça chave de uma história. Mas neste livro, as peças chave são essas conversas, que podem parecer que não desenvolvem muito a história, mas aumentam sempre a nossa compreensão das personagens. O que interessa ali são as pessoas, logo as pessoas, de entre as quais, pessoas nem por isso excepcionais ou brilhantes, mas pessoas perfeitamente normais, nas quais posso encontrar semelhanças com uma série de conhecidos meus.
Na prática, não o estudando, mais do que ler, este é um livro com o qual se convive. A sério. São dois volumes espessos. Conto manter um relacionamento mais genuíno e duradouro com estas páginas de papel do que com muitas pessoas de carne e osso.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Conversar em público



Se não for visto pelo que é dito, pelo menos que seja visto para aprender como se conversa em público. Sem interromper, sem desviar do assunto sem aviso, respondendo ao que o interlocutor diz e não a estereótipos, conhecendo previamente as suas posições, identificando os pontos em que se concorda e se discorda, não anulando a possibilidade de convergência para efeitos táticos. Disto nunca vi em Portugal. Não sei se esta cultura de debate é um exclusivo britânico. Se for, é uma tristeza se se tornar mais distante ou inacessível aos restantes países europeus após o Brexit.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Não maltratem as certezas




Eis um ramo de pensamento que a mim me amedronta: que a certeza começa guerras, que acabamos por impor aos outros aquilo que acreditamos ser verdade.
Eu gostei muito desta entrevista em comparação com a qual, quase tudo o que se ouve neste segmento do programa parece um monte de banalidades papagaiadas sem se pensar muito nisso, sem custar muito a quem o diz.
Mas retive este momento, porque é uma afirmação forte, que acredito que represente o pensamento mais genuíno e sincero de muitas pessoas.
Uma das coisas que mais me inquietou durante o Silêncio foi precisamente que no seu retrato dos cristãos, em nenhum momento houve uma tentativa de organizar uma rebelião, ou sequer uma fuga do país. Não sei se isto corresponde à verdade histórica, mas vou supor que sim. Temos os cristãos, dogmáticos nas suas crenças, a morrerem sem qualquer hipótese de sequer exprimir a sua fé - as suas certezas - e os seus perseguidores, budistas e como tal, relativistas em vários aspectos, a imporem a sua regra pelo uso da força. Não que tivessem uma verdade central a impor, mas apenas pela possibilidade de serem expostos a uma ideia considerada "perigosa" - perigosamente contrária às suas. Esta "não-certeza" violenta seria algo sobre a qual perguntaria a opinião de Andrew Garfield, porque parece virar de pernas para o ar a sua afirmação.


Por outro lado, nesta fase em que tudo justifica a eleição de Trump - e quase todas as justificações me parecem acertadas - também perguntaria se o momento que vivemos não foi produzido por um vazio criado por uma série de certezas que foram derrubadas ou pelo menos desgastadas sem que se tenham encontrado substitutos à altura. Será que certezas testadas, fortes e respeitadas, não nos teriam impedido de cair no meio deste vendaval? E será que a nossa possível sobrevivência a este tempo não será conseguida à custar de encontrar as certezas que ainda restam, algumas das quais que já julgávamos perdidas?
Não saber relacionar com a certeza não devia implicar demonizar a certeza. Esta parece-me sim uma das ideias mais perigosas de entre a oferta disponível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Uma biologia da solidão

Eu sou pessoa de trautear. Esteja ou não a fazê-lo, trago quase sempre alguma música na cabeça, e não exprimi-lo trauteando, assobiando, tamborilando num objecto qualquer - para não perturbar os outros - é um acto de contenção. Quando estou no trabalho e por alguma razão me apanho sozinho na sala, imediatamente começo a fazer barulhos assim que a última pessoa a sair fecha a porta.
Como estamos de costas uns para os outros, estou constantemente habilitado a passar pelo embaraço de, sei lá, desatar a cantar despreocupadamente uma das foleirices da minha banda sonora mental, naquela sala consagrada ao fabrico de electrodos, quando afinal ainda estava um colega a um canto que eu não tinha reparado.
Nunca aconteceu. De tempos a tempos, penso nisto. Que ao longo de tantos anos, tal coisa nunca aconteceu mesmo quando seria tão provável de acontecer. É como se um sentido pouco falível detectasse um vibração específica presente no ar e informasse inconscientemente "estás sozinho e passas despercebido, faz como bem entenderes". Como se fosse possível propor uma biologia da solidão, na qual o corpo reagisse ao estímulo de estar sozinho de uma maneira própria, que de outro modo não seria possível. Da mesma maneira que certas aves comportam-se de maneira auto-destrutiva no cativeiro, ou os seres humanos aguentam mais tempo sem respirar se estiverem debaixo de água. Talvez este mecanismo pudesse ser accionado de formas artificiais. Talvez servisse até para explicar que pessoas mais desinibidas se vêem mais sozinhas no mundo, sem nunca darem por isso.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Terra Fresca e animé

As histórias do João Leal frequentemente levam-me para o imaginário do animé. Não sei se ele vê esse tipo de coisa. Eu próprio não acompanho nada disso há quase dez anos...
O Terra Fresca fez-me lembrar os Homúnculos do Fullmetal Alchemist, aquelas criaturas não exactamente humanas criadas como um sub-produto da tentativa de Edward e Alphonse tentarem ressuscitar os pais. Para além disso, há um capítulo do livro chamado Troca Justa, expressão parecida com outra recorrente no animé ("troca equivalente").
Por outro lado há cadernos, que segundo uma série de regras, determinam a vidas de pessoas, e logo me surge Death Note.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Este é o meu país



Quando estava a ler este parágrafo de um livro do William Lane Craig, senti aquela vergonha nacional que nos leva a suspirar "são mesmo tugas". Porque isto é muito próprio da conjuntura portuguesa, de achar que a ideia "Deus" está perfeitamente conhecida, ultrapassada, domesticada e arrumada em lugares convenientes que não causem muita perturbação. E como tal entendo que ouvir alguém a apresentar argumentos lógicos a favor da existencia de Deus numa universidade possa causar perplexidade.
No entanto, é sempre bom relembrar o tipo de argumentos usados por Craig: argumentos lógicos. Com recurso a premissas básicas, verdadeiras até prova em contrário, tenta chegar a conclusões também verdadeiras. Aparentemente, e repetindo a história portuguesa, este arma de eleição não reuniu entusiasmo e partiram para o argumento ad hominem - o homem deve ser um charlatão, quiçá trabalha para os apanhados.
Falo ainda sem saber, mas supondo que no auditório estavam pessoas que se consideram "livres-pensadoras", já que o episódio passou-se numa Universidade, a minha repulsa por esta rapaziada aumenta sempre que ouço este título aplicado a quem se auto-impõe proibições destas. Este é o meu país e eu vivo nele.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Ao ver a Teoria do Big Bang

que é a única série que acompanho, pergunto-me sobre o que Tolkien ou Lewis achariam disto tudo. Sobretudo Tolkien, sem o qual tudo isto não existiria. Ainda hoje, enquanto via este diálogo do Hobbit, promotor de coragem, das façanhas físicas, do ar livre, da curiosidade pelo desconhecido, pensava sobre estes valores serem abertamente desprezados por quem mais gosta desta ficção. Nesse sentido, considero-me um adepto atípico do Senhor dos Anéis, porque precisamente porque gosto dessas coisas que o Gandalf tenta resgatar a Bilbo, gosto também da história.



Igualmente surpreendente, e amplamente repetida na Teoria do Big Bang, é a estranheza às mulheres. Não só nas histórias da Terra Média o amor entre homem e mulheres faz parte, sendo por vezes a força motora da história, como o próprio Tolkien se definiu muito enquanto marido e amante da sua esposa (de quantos escritores românticos poderá dizer-se o mesmo?).

Tenho reparado que já passaram cerca de quinze anos desde que li o Senhor dos Anéis e o Silmarillion, embora não pareça tanto tempo por causa da presença persistente dos filmes de Peter Jackson no cinema e na televisão. Talvez seja a altura de regressar pelo menos ao Silmarillion, agora com o dobro da idade, enquanto ainda não há sequer um sussurro de um possível filme. E agora com outras ferramentas, apreciar aquela história literalmente épica.

sábado, 21 de novembro de 2015

“As nossas prioridades são os direitos!” - Vinte de Novembro de Dois Mil e Quinze

Esta frase da notícia do Público espelha o que eu penso disto tudo (um pouco à semelhança da opiniao de Miguel Sousa Tavares na SIC, quando se falou da co-adopção). É tudo uma questão de direitos; que se fale no bem estar das crianças, no mesmo dia em que se avança com a liberalização da Procriação Medicamente Assistida é no mínimo questionável. Um pouco como quando se falou nas dádivas de sangue, também aposto que era no superior interesse do receptor.

Mais uma vez, estas leis representantes do Progresso vão passar em alturas estratégicas, sem que ninguém dê por isso, sem que a discussão seja realmente autorizada. Afinal, direitos humanos são inegociáveis, não é? E uns poucos decidiram que certas coisas eram direitos humanos. E a favor disso, tudo vale.

O  que está em causa nunca foi uma medida aqui e acolá. Quando se votou o casamento para indivíduos do mesmo sexo, a esquerda assegurava que a adopção nada tinha a ver com o assunto, como se não fosse a consequência lógica que a direita antevia. A imagem que me ocorre é a de alguém que acalma um animal para melhor o abater. Um dia depois, já havia um senhor da esquerda que não me lembro quem a dizer que poder casar mas não poder adoptar era tão inconstitucional que até chateia.

Não gosto deste mundo, detesto homossexuais organizados em associações ou em desfile, e não suporto que se legisle a vontade desses grupos. Vai ficar na lei do país...

Por mim, este dia devia ficar na memória: vinte de Novembro de dois mil e quinze, Dia do Progresso em Portugal. Resta esperar que os factos não venham a ser dourados num revisionismo histórico conveniente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Dilemas morais de super-heróis


Aqueles dilemas morais de super-heróis sempre pareceram só isso, dilemas morais de super-heróis. Ou manténs-te impoluto e sentes-te responsável pela perda da vida de centenas de pessoas, ou comprometes aquilo em que acreditas para poder salvá-las.
No entanto, agora que a maldade de uns quantos se tornou tão definida e efectiva, suponho que essa seja uma grande questão. Agora que estamos em condições de realmente discutir o assunto, vão haver interrogatórios com recurso a tortura? O primeiro a responder a este assunto deveria ser, naturalmente, José Sócrates, já que fez uma pos-graduação nessa área de especialidade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Tu foste influente porque quero

Saiu uma lista dos livros académicos mais influentes, com o merecido primeiro lugar para A Origem das Espécies. No entanto, há vários livros de filosofia na lista, nenhum deles pertencente a Nietzsche. Eu não percebo nada de filosofia, mas se há coisa que tenho ideia é que o alemão praticamente pariu ideologicamente a minha geração. Devia ter ficado no mínimo em segundo ou terceiro lugar. Em relação a este senhor, surge sempre a questão de estarmos a eleger os verdadeiros influentes, ou apenas os influentes que desejaríamos que fossem, ou até os influentes que convêm. Ele lançou essa dúvida, está entranhada, não vai morrer e ninguém sincero e maduro pode negar-lhe a existência. É por isso que ele é tão importante. É por isso que ele é tão enxotado.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Homem por gato

No episódio de Parts Unknown em Beirut, Anthony Bourdain entrevista uma rapariga síria, refugiada prestes a ser deportada para o país de origem. Uma das perguntas foi se o conflito valia a pena; se seria um momento de sacrifício para conseguir algo melhor. A resposta da rapariga foi que a partir do momento em a luta custa vidas humanas, já foi longe de mais, concluindo com uma frase do género (estou a recorrer à memória) "nada vale mais do que uma vida humana".
A demonstrar um humanismo tão definido e determinado, imagino que a rapariga esteja a perseguir um ideal ocidental inegociável. Se conhecesse melhor o lado de cá, teria de ficar um pouco desiludida. Enquanto via o programa, lembrava-me da quantidade de pessoas que não trocaria a vida do seu cão, do gato, do piriquito ou da tartaruga, pela vida daquela rapariga. Aqui, somos existencialistas, produzimos os nossos significados e éticas particulares, e estando homens e mulheres ao leme, quem sabe onde as coisas vão parar. Por exemplo, a dignidade superior do Homem em relação à restante Criação perdeu-se. Um homem ou mulhere só são importantes se forem importantes para mim. E aquela rapariga síria dificilmente terá um estatuto desses. Pode-se lembrar ainda os casos mediáticos do sem-abrigo estendido morto no meio da rua, os dos idosos abandonados à morte pela família para confirmar a tendência.
Só por esta condição degradante, o Ocidente já merecia ser engolido por outra coisa qualquer da mesma maneira que os povos pagãos do Velho Testamento, com a sua ausência de valores e os seus sacrifícios humanos, também tinham de desaparecer.

Nem de propósito, saiu a notícia dos fins de relacionamentos por causa de animais de estimação.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015